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O amor não é uma ideia

(…) O amor não é uma ideia. É uma emoção que pode arrefecer ou aquecer. Vem e vai. É um sentimento que adquire forma e dimensão e tem cinco ou mais sentidos. Por vezes, aparece-nos na forma de um anjo com asas delicadas capazes de nos arrancar da Terra. Por vezes, investe contra nós como um touro, deixa-nos estendidos no chão e vai-se embora. Outras vezes, é uma tempestade que só identificamos depois da devastação que provocou. Outras vezes ainda, cai sobre nós como o orvalho da noite, quando uma mão mágica ordenha uma nuvem errante.
Mas todas estas formas se fundem – se tornam visíveis, perceptíveis e tangíveis – numa mulher, não numa ideia. Amamos a tentação da forma, e a imaginação dedica-se a indagar o que de misterioso e estranho guarda. As almas conhecem-se e desenvolvem proximidade através da forma, que brilha graças à sua essência. E é possível que divirjam na interpretação do que o corpo diz ao corpo e partam em busca de outra transparência, dissolvendo-se em corpos repletos de água, harmonia e música. O amor é caprichoso, mutável, resistente à identidade. É o acometimento que confunde paixão e iluminação. É o que não conheces e sabes que não conheces. É a consumação do significado no não-significado, em virtude da sua excessiva tendência para a gratuitidade e para o esbanjamento. É a antítese da repetição e da pretensão de emendar o ar com cor. Caso contrário, pode converter-se num matrimónio em que a correcção mútua substitui a improvisação da poesia indispensável ao amor. A prosa das tarefas domésticas não serve para conservar duas pêras frescas no prato de mármore, nem para incitar o desconhecido a travar o conhecido. Tem de haver mistério. Tem de haver mistério para que o amor continue a ser surpresa e dádiva. Portanto, não abras o armário que guarda os segredos da natureza dela. (…)

Mahmoud Darwish, in Na Presença da Ausência

Na Presença da Ausência

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A Prisão de Darwish

Prison is intensity. Nobody can spend a night in it without training his throat to something like song. That is the permited method for taming the isolation and maintaining the dignity of suffering. When you hear your hoarse voice, your other self is conversing with you and whispers to you news about yourself, in a room which, however cramped it may be, is surrounded by wide space, and you embrace the world with a love of peace. While you are singing, you do not sing in order to share the night with someone else. You do not sing to measure the rhythm of time, or as a sign; you sing because the cell incites you to confide in the outsider, to reduce the totality of isolation. Fields come to you with the rustling of golden ears of grain; the sun fills your heart with the light of an orange; alpine flowers come to you, in disorder like the hair of a chaotic girl; and the aroma of cardamom comes to yo. If is as if you had never before been alert to the space and peace about you. to your failure to celebrate Nature.

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