É lugar comum falar-se de escritores e escritas habitadas, quando não mesmo assombradas. Robert Pinget (Genève, 1919 Tours, 1997) vai além da recipiência (ouso este neologismo porque sei que ele o aprovaria). A forma do vaso coincide com o seu conteúdo mas não vai até confundir-se com ele, aliás pode existir autonomamente. Desde o seu segundo primeiro livro, ENTRE FANTOINE ET AGAPA, que esboça uma geografia e um conjunto de residentes, incessantemente configurados e reconfigurados, Robert Pinget revela lugares e personagens incorporados a ponto de poderem atravessar as narrativas revelando pouco de si, principalmente um tom, uma tonalidade, uma toada roubada à partitura do mundo cuja sonância reconhemos sem conseguirmos identificá-la. Generosa fatia do seu universo interior, a ficção de Pinget esforça-se por contornar a armadilha da intimidade. Ela não brinca com a impressão de realidade (como alguns nouveaux romanciers envolvidos numa espécie de despique com o cinema) mas antes com a de ardilosa familaridade. As Éditions de Minuit arrumaram-no no contingente do Nouveau Roman, classificação publicitária que fazia sorrir silenciosamente o escritor.
Entre Fantónia e Ágapa
Robert Pinget
12.00€